EDIÇÃO 03 · 2026 PAULO CREPALDI
Em junho de 2024, passei dez dias na China com a StartSe. Voltei com um desconforto que fez a viagem valer a pena: algumas das referências que eu levava já não me ajudavam a entender o que via.
Dois anos depois, essa inquietação chegou ao meu olhar sobre Farma:
empresas chinesas já são concorrentes e possíveis parceiras. Precisam entrar no nosso planejamento estratégico.
Um dado da IQVIA torna isso concreto: em 2025, 40% dos ativos obtidos por licenciamento pelas grandes farmacêuticas (big pharma) tinham um licenciador chinês.
Na viagem, o QR Code conectava o cardápio, o pedido e o pagamento. WeChat e Alipay estavam presentes nas tarefas mais comuns. “Mas, PC, no Brasil também fazemos tudo pelo celular.” Fazemos. O que me interessou foi a ubiquidade: estar presente em diferentes momentos da vida do cliente. Nas visitas à Tencent e à Kwai, observei conexões entre serviços, dados e parceiros — oportunidades de aprender sobre a jornada.
Se Hollywood ajudou os Estados Unidos a entrar no nosso imaginário, nas empresas chinesas me chamou a atenção a ambição de entrar no nosso cotidiano. É a minha leitura da viagem: uma busca por uma visão de 360 graus, embora mais dados não garantam a compreensão completa de alguém. Registrei essas impressões no artigo “Eu fui para o outro lado do meio: China”, de julho de 2024.
Na China, em 2024, durante uma apresentação da Tencent sobre tecnologia em saúde. Acervo pessoal.
A China já entra nos portfólios
Em 2024, a parcela de ativos licenciados pela big pharma que tinham um licenciador chinês era de pouco menos de 30%, segundo a mesma análise da IQVIA. Em um ano, o peso dos licenciadores chineses aumentou. São acordos para obter direitos sobre candidatos ou tecnologias — um caminho para construir o portfólio de amanhã. O dado ajuda a rever a imagem de uma China reduzida à cópia e ao produto barato.
Fonte: IQVIA, análise de janeiro de 2026, reafirmada na atualização de julho. “Big pharma” é o recorte adotado pela fonte para designar as grandes farmacêuticas. Os 40% se referem aos ativos licenciados nesse grupo; não à parcela de medicamentos aprovados ou vendidos no Ocidente.
Em acordo anunciado em 13 de outubro, a Roche obteve da chinesa Rona direitos mundiais exclusivos sobre uma terapia experimental para obesidade. O valor pode chegar a US$ 1,16 bilhão, além de royalties, mas inclui pagamentos condicionados ao avanço do projeto. A inovação chinesa já participa da construção de portfólios globais.
Também há oscilações: a síntese IQVIA de pesquisa e desenvolvimento de 2026 registra queda no número de ensaios iniciados por patrocinadores sediados na China em 2025. Licenciamento e pesquisa clínica medem movimentos distintos. O interesse nos acordos não elimina o risco de um candidato fracassar.
No Brasil, a parceria já tem nomes. Em setembro de 2025, Gan & Lee anunciou um contrato de dez anos com Fiocruz e Biomm para a transferência de tecnologia e o fornecimento de insulina glargina. O plano prevê o fornecimento inicial de produto acabado e, em etapa posterior, a transferência tecnológica e o envase local com insumo fornecido pela chinesa. É uma parceria contratada, não comprovação de produção integral já nacionalizada. Fonte: Gan & Lee.
Para quem acompanha o tema do diabetes, a pergunta fica concreta: como essa parceria pode mudar os fornecedores, o acesso e a concorrência? Ela mostra uma conexão com o SUS; não é evidência de descoberta de uma nova molécula.
O que um acordo permite enxergar
Um anúncio de maio de 2026 ajuda a enxergar o que está por trás desses acordos. Bristol Myers Squibb e Hengrui anunciaram acordos envolvendo 13 programas em estágio inicial: quatro de origem Hengrui, quatro de origem BMS e cinco de descoberta e desenvolvimento conjuntos em oncologia, hematologia e imunologia.
Fonte: BMS e Hengrui, anúncio de 12/05/2026. O anúncio descreve a estrutura prevista; não demonstra sucesso dos programas.
O que me interessa aqui é a combinação de competências. Uma descoberta com participação de uma empresa chinesa pode, mais adiante, chegar ao mercado por uma companhia que você já acompanha.
Para marketing e liderança comercial, isso exige olhar para a China sob duas perspectivas: quem pode disputar o nosso mercado e com quem podemos construir uma parceria. O nome que aparece hoje na lista de laboratórios pode contar apenas uma parte da história do portfólio em construção.
A origem da inovação merece entrar na conversa antes do lançamento.
O que eu gostaria de trazer na bagagem
Na viagem, vi conexões entre os serviços. Para Farma, trago uma pergunta: o que se perde nas passagens entre pesquisa, produção e acesso?
Em um ensaio sobre a inovação chinesa, Noah Smith discute a aproximação entre pesquisa e aplicação, com base no economista Barry Naughton. Também reconhece ineficiências e projetos inflados. Essa é uma lente para investigar as conexões, não uma explicação do desenvolvimento de medicamentos a partir dos superapps.
Síntese editorial para esta edição, inspirada na discussão sobre as conexões entre pesquisa e aplicação. As etapas se sobrepõem e podem exigir retornos; o desenho não mede velocidade nem representa todo o desenvolvimento de um medicamento.
No nosso trabalho, um resultado clínico chega a quem acompanha o mercado? A área médica distingue o avanço relevante da manchete? Marketing e acesso discutem juntos o que ele poderia mudar no Brasil? Acompanhar a China só ajuda quando alguém conecta a informação às decisões da equipe.
Por onde começar no próximo planejamento
Minha proposta é colocar três tarefas na mesa:
Conhecer a inovação chinesa na sua área. Escolher, com inteligência de mercado e área médica, empresas e candidatos pertinentes. Registrar evidência, estágio e próximo resultado esperado; conferir também a origem dos ativos que você já acompanha.
Colocar esses participantes no planejamento. Discutir com marketing, acesso e suprimentos o que pode mudar na concorrência, no posicionamento e no fornecimento. De onde vem o insumo farmacêutico ativo (IFA) do seu produto principal? A dependência de fornecimento e a inovação exigem análises distintas.
Criar aproximação com propósito. Levar o mapa à equipe de parcerias e licenciamento. Identificar quem conhecer, qual conversa faz sentido e quem vai conduzi-la. Marketing contribui para a leitura do mercado; a avaliação de uma parceria exige outras competências.
Preço também entra no mapa. Pergunto-me se a experiência histórica com a escassez influencia essa atenção a custo e escala — uma hipótese minha, ainda a investigar. As diretrizes emitidas pelo Escritório Geral do Conselho de Estado chinês em abril de 2026 combinam compras em volume e negociação com preços iniciais que reconheçam o investimento e o risco de inovações de alto valor clínico. Notícia oficial, 15/04/2026.
A origem chinesa não permite prever o preço no Brasil. É preciso estudar como cada empresa combina inovação, custo, escala e acesso.
A objeção mais forte permanece: muitos programas fracassam. Evidência clínica, regulação, produção e acesso determinam o que se torna tratamento. A atenção deve ser proporcional à sua área, e o plano deve mudar quando a evidência mudar.
Na China, uma das coisas que me surpreenderam foi ver mapas com o país no centro. Nós aparecíamos do outro lado. Talvez essa seja uma boa imagem para guardar: o mapa da inovação muda, mesmo quando continuamos olhando do mesmo lugar.
Pra puxar assunto

Ipsen: quem prepara o paciente para a próxima etapa?
Deixar o pediatra exige aprender a marcar consultas, acompanhar o histórico e assumir cuidados antes organizados pelos pais. A Ipsen aborda essa passagem por meio do Healthcare Shift, lançado nos Estados Unidos em 2025, com guias para jovens e famílias.
Vejo uma oportunidade de discutir também o papel de cada profissional: o que o pediatra prepara, o que o especialista receptor precisa saber e como o histórico acompanha a pessoa? A vida não se organiza em especialidades; o cuidado precisa atravessar essa divisão.
A pesquisa encomendada à Harris Poll, divulgada em maio de 2026 dá continuidade à iniciativa. Ainda não demonstra redução das interrupções no cuidado; a aplicação ao Brasil precisaria considerar nosso sistema.

CVS: aprender IA pode fazer parte da proposta de trabalhar ali
A CVS organizou sua AI Learning Academy por unidades de negócio e funções, com aprendizagem prática e uso responsável. A proposta é desenvolver competências ao longo do tempo. Conheça a iniciativa.
Em agosto, informou mais de 18.500 presenças em sessões ao vivo — não pessoas únicas. Atualização da empresa.
No Brasil, empregadores de vários setores relatam dificuldade em encontrar competências na pesquisa da ManpowerGroup (2026). Vejo uma hipótese de atração e retenção: oferecer aprendizagem em IA pode tornar a empresa mais interessante e preparar quem já trabalha nela. Depende do tempo para aprender e das oportunidades de desenvolvimento; não há resultado de retenção atribuível à academia demonstrado nas fontes consultadas.

Minha participação no Varejo S.A.
O cliente quer resolver o quê?
Arte oficial: Varejo S.A./CNDL · Design: Carlos Dourado. Página do episódio.
No episódio “Varejo mais humano na era da IA”, conversei com Daniel Sakamoto sobre uma ideia: a tecnologia precisa servir ao contexto da pessoa. Repor um produto de limpeza, escolher um presente e comprar um sofá pedem tipos diferentes de ajuda.
Três discussões orientam a conversa:
Humanizar também é retirar esforço: preço claro e menos repetição podem melhorar o atendimento.
Personalizar exige entender o momento: conto como uma loja continuou recomendando o presente que eu já havia comprado para minha filha.
Adotar IA começa pelo problema: escolher uma tarefa e acompanhar o que melhorou.
Convido você a assistir ou ouvir para discutir essas escolhas com sua equipe. O contexto da saúde tem particularidades, mas a pergunta cabe: a tecnologia está ajudando a compreender a pessoa e facilitar sua vida?
Assistir no YouTube · Ouvir o episódio
Varejo S.A. Podcast, episódio 247 · publicado em 14/10/2026 · 46 minutos.

Prompt do dia — com o Quati
Menos aplauso automático, mais critério
Tenho usado este prompt para questionar meus textos, minhas propostas e meus vieses. Ele também pede que a IA reconheça quando o raciocínio se sustenta. Discordar de tudo seria outra forma de atrapalhar.
Copie antes de apresentar o texto ou a ideia:
Seja honesto, preciso e útil. Priorize as evidências em vez de tentar me agradar. Quando algo estiver errado, sem sustentação ou for internamente contraditório, diga isso com clareza. Se meu raciocínio se sustentar, reconheça isso também. Separe fatos, inferências e opiniões. Diga quando estiver incerto. Nunca invente fontes ou estatísticas. Quando eu contestar sua resposta, reavalie com base nas evidências — não porque eu pareço confiante.
Teste da edição: na preparação desta edição, o prompt foi aplicado a três casos fictícios, com uma contestação adicional. A IA corrigiu uma confusão entre porcentagem e pontos percentuais, rejeitou uma conclusão sem evidência, reconheceu um argumento válido e manteve a correção sob pressão para concordar.
4 de 5 quatis — avaliação editorial. Os quatro comportamentos apareceram, mas o teste foi limitado: não houve comparação com respostas sem o prompt, e o sistema já exigia precisão. Isso não demonstra redução de complacência nem garante acerto. Confira as evidências apresentadas.
Tradução do prompt em inglês que selecionei; autoria original não confirmada. A complacência é uma falha documentada pela própria OpenAI.
E você?
Na sua área, a China aparece como fornecedora, concorrente ou parceira — ou ainda não aparece?
Conte um caso ou uma dúvida; pode ser uma pergunta que surgiu numa conversa com um médico. Não inclua informações confidenciais de pacientes ou da empresa.

Paulo Crepaldi
Behavior designer







