Edição 05 · 2026
Uma caixa de medicamento pode registrar que foi aberta. Um relógio pode acompanhar sono, movimento e batimentos.
Mas abrir a caixa não é o mesmo que tomar o medicamento. E registrar uma dose perdida não explica por que ela foi perdida.
Quando olho para o paciente conectado, penso em tudo o que acontece entre uma consulta e outra.
Ele pode acompanhar o sono no relógio, pesquisar um sintoma no celular, passar na farmácia, ler a bula e decidir se consegue — ou se quer — continuar um tratamento. Parte dessa jornada produz dados. Outra parte continua na cabeça de quem está vivendo aquela experiência.
É aí que entra a pergunta que me trouxe a esta edição: estamos preparados para um mundo em que o paciente gera cada vez mais dados de saúde?
O que acontece entre as consultas?
No segundo trimestre de 2025, 25,7% dos internautas brasileiros de 16 a 64 anos declararam possuir um smartwatch, segundo dados da GWI apresentados pela DataReportal. O número mede posse de relógio inteligente, não uso clínico ou uso de todos os tipos de wearables. Fonte: DataReportal/GWI.
Além do pulso, sintomas, exames e conversas também mostram o que acontece fora do consultório e nem sempre chegam à equipe de saúde.
Nos Estados Unidos, 20% dos donos de wearables pesquisados pela Rock Health queriam conversar sobre seus dados com um profissional de saúde, mas ainda não haviam feito isso. O resultado não representa o Brasil. Fonte: Rock Health.
Aqui, a TIC Saúde 2025 mostra que 92% dos estabelecimentos de saúde utilizavam sistemas eletrônicos para registrar informações dos pacientes. Já 44% possuíam sistemas que permitiam enviar ou receber encaminhamentos eletrônicos. São funções diferentes: o levantamento não diz quantos pacientes tiveram dados compartilhados nem mede a integração de relógios.
Se os serviços ainda têm desafios para trocar registros entre si, como vamos receber, selecionar e usar os sinais que o paciente traz da própria rotina?
O Trust Gap
Um gráfico editorial apresenta uma hipótese ligada ao healthcare trust gap: a distância entre os dados gerados pelas pessoas e os coletados pelos prestadores. A ilustração é conceitual e não traz escala, dados medidos nem data para o cruzamento das linhas.
Artur Olesch, fundador do aboutDigitalHealth, levanta a hipótese de que, se os sistemas de saúde não integrarem os dados gerados pelas pessoas, a confiança pode ser afetada e empresas de tecnologia podem ocupar uma parte maior dessa relação. Essa possível migração não é demonstrada pelo gráfico.
Para mim, a pergunta é se esse sinal encontra escuta, contexto e resposta no cuidado. E existe outra dimensão da confiança: o que acontece com os dados depois de serem compartilhados?
Em uma pesquisa Vox Populi/IESS, divulgada em 2026, 42% dos beneficiários de planos de saúde entrevistados disseram estar totalmente seguros com a ideia de ter seus dados de saúde integrados em um único sistema. Outros 29% se sentiam seguros, mas não totalmente, e 24% não se sentiam seguros: somados, 53% não se sentiam totalmente seguros. A pergunta foi feita a 1.025 beneficiários em oito regiões metropolitanas, e não à população brasileira como um todo.
Para mim, a pergunta passa a ser dupla: o sistema consegue receber um sinal relevante? E a pessoa entende quem terá acesso a ele, para quê e que apoio pode esperar em troca?
Uma revisão de escopo no Journal of Medical Internet Research analisou 16 estudos sobre dados gerados por pacientes por meio de tecnologias móveis. Encontrou possibilidades de melhorar a conversa e apoiar decisões, mas também dificuldades de integração, dúvidas sobre a qualidade dos dados e resistência profissional. Em alguns casos, os dados reforçaram a autoridade clínica em vez de ampliar a participação do paciente. A maioria dos estudos vinha de países de alta renda; não dá para extrapolar seus resultados automaticamente para o Brasil.
O ciclo precisa chegar à vida real
O consultor de saúde digital Gary Monk descreve o ciclo do paciente conectado: captar, conectar a informação e responder, acompanhando o resultado. Seu artigo integra uma série em parceria com a Ypsomed, fabricante de dispositivos. Para fechar o ciclo, alguém precisa saber o que fazer e a pessoa precisa perceber que vale a pena participar.
Uma pesquisa do Opinion Box sobre uso de medicamentos, feita com mil pessoas pela internet em março de 2026, ajuda a enxergar algumas decisões que acontecem fora da consulta:
60% disseram já ter parado um tratamento antes do tempo recomendado pelo médico;
52% já desistiram de um tratamento indicado por considerá-lo caro;
49% já desistiram de tomar um medicamento após ler a bula, por medo dos efeitos colaterais.
São experiências relatadas ao menos uma vez, não necessariamente pelas mesmas pessoas. A pesquisa não mede a parcela atual de tratamentos interrompidos no Brasil.
Um sistema pode registrar uma interrupção. Mas, para entender o que fazer depois, precisamos saber se aquela pessoa enfrentou uma dificuldade de acesso, ficou com medo, teve uma experiência ruim ou tomou uma decisão e ainda não conseguiu conversar com sua equipe.
Adesão não deveria virar um placar usado para culpar o paciente. Antes de insistir no comportamento esperado, precisamos entender a barreira, alinhar o que faz sentido para a pessoa e verificar se o apoio ajudou.
As quatro perguntas antes do painel
Em artigo da HLTH sobre wearables, o médico Jared Dashevsky lembra que a forma de obter uma medida e sua avaliação regulatória são importantes para o uso clínico. Uma função avaliada nos Estados Unidos não está automaticamente disponível ou indicada no Brasil.
Um exemplo de preparação já se vê na cardiologia. Em 2025, o American College of Cardiology publicou orientações sobre o uso de dados do Apple Watch no acompanhamento cardiovascular. A ferramenta foi desenvolvida com financiamento e apoio da Apple, fabricante do relógio.
O material propõe organizar a coleta e a resposta aos sinais e reconhece seus limites: o relógio não detecta infarto nem substitui um monitor adequado quando é necessária a notificação imediata à equipe clínica. A orientação refere-se ao contexto americano.
Acesse o guia original do ACC (em inglês).
Antes de criar mais um painel, quatro perguntas parecem essenciais:
O sinal é confiável para a decisão em questão? Qual aparelho, medida e contexto o produziram?
A pessoa entende e quer compartilhar? Que benefício espera, quem terá acesso e para quê?
Quem recebe e age? Existe equipe, fluxo e resposta proporcionais ao que foi observado?
O apoio ajudou? O que mudou para o paciente e o que ainda precisa ser revisto?
Quem não tem um aparelho também precisa de apoio: contato humano, orientação simples ou outro acompanhamento podem ser mais adequados à realidade daquela pessoa.
O que o varejo consegue ver?
No varejo, a compra é um ponto visível de uma jornada que começa antes e continua depois. Na saúde, ela pode indicar que o medicamento chegou às mãos de alguém, mas não se a pessoa compreendeu a orientação, iniciou o tratamento ou conseguiu mantê-lo.
No marketing, Val Geisler chama atenção para a experiência depois da aquisição. A pergunta também interessa à saúde: o que acontece depois que alguém começa? A comparação tem limite: mudar ou interromper um tratamento pode ser apropriado na conversa com a equipe.
Os dados da compra trazem outra pergunta: quem pode acessá-los, para quê e em benefício de quem?
Quatro referências para quem desenha o acompanhamento:
LGPD: dados de saúde são sensíveis; o compartilhamento entre controladores para vantagem econômica tem vedações e exceções específicas.
Anvisa — RDC 657/2022: um software com finalidade médica pode precisar de regularização, conforme sua função e classificação.
CFM — Resolução 2.314/2022: o telemonitoramento médico prevê indicação, orientação e supervisão por médico.
Guia Interfarma: a orientação às associadas e aderentes é que o suporte ao paciente não seja incentivo à prescrição ou à compra. O guia reúne boas práticas não vinculantes.
O que muda para a Farma?
Um desconto pode reduzir uma barreira de acesso. Um programa de suporte ao paciente pode oferecer orientação e acompanhamento. Um serviço clínico pode exigir profissionais, responsabilidades e capacidade de resposta. Essas iniciativas podem se relacionar, mas cumprem funções diferentes.
Para quem desenha um programa, a medida de sucesso não deveria se limitar ao número de inscritos ou de alertas enviados. Vale perguntar: qual barreira foi identificada, que apoio foi oferecido e que benefício foi observado? E, quando houver acesso a dados, quais pessoas ou organizações realmente precisam recebê-los para cumprir essa função?
Há uma tensão legítima: a continuidade do tratamento pode interessar à pessoa, à equipe de saúde e à empresa por razões distintas. Reconhecer esses interesses ajuda a desenhar um apoio mais transparente e a preservar a relação médico-paciente.
Para marketing e equipes de campo, uma pergunta pode abrir uma conversa mais útil com os profissionais de saúde:
Quando o paciente perde uma dose, quem fica sabendo — e o que acontece depois?
A resposta pode revelar a necessidade de melhor orientação, de acesso, de uma conversa clínica ou de um fluxo que ainda não existe. Nenhuma dessas possibilidades deve ser presumida com base em um alerta isolado.
O paciente conectado vive uma jornada entre consultório, farmácia e casa. Minha pergunta para os gestores de saúde e para a Farma é: estamos organizados para ouvir essa jornada e responder ao que ela revela?
Pra puxar assunto
Saúde foi a maior categoria da lista da TIME
A TIME selecionou 300 invenções de 2026. Ao percorrer as 37 categorias da lista principal, contamos 31 em Medical & Healthcare — a maior categoria individual — e outras 14 em Health & Wellness. É uma seleção editorial da revista.
A saúde também aparece em lugares menos óbvios da lista. Em Design, a Dyson CameraJet combina escovação, jatos de água e uma câmera. Em Parenting, o Coro propõe medir o fluxo de leite durante a amamentação. E, em Acessibilidade, o OneCourt transforma dados esportivos em vibrações para torcedores cegos ou com baixa visão.
Do Via Oral
No Via Oral, conversei com Kelly Rodrigues sobre a experiência do paciente. Ela explicou como o desenho de uma jornada pode incluir entrevistas com médicos e pacientes para compreender os altos e baixos de cada etapa. Essa conversa me traz de volta à pergunta desta edição: que parte da experiência de quem está em tratamento não aparece no painel? Ouça o episódio.

E você?
Paulo Crepaldi, behavior designer
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Notas de fonte
GWI/DataReportal: posse de smartwatch no segundo trimestre de 2025 entre internautas brasileiros de 16 a 64 anos. O gráfico usa um cabeçalho global “16+”; a GWI informa que o Brasil não estava entre os mercados com participantes de 65 anos ou mais naquela onda. A amostra brasileira específica não foi identificada no gráfico.
Rock Health: pesquisa com 8.000 adultos nos Estados Unidos, em dezembro de 2025. Os 20% são uma parcela de quem declarou possuir wearable, não de toda a amostra nem de brasileiros.
TIC Saúde 2025: entrevistas com 3.270 gestores entre fevereiro e novembro de 2025. Os indicadores de registro eletrônico e envio ou recebimento de encaminhamentos descrevem capacidades diferentes, não um fluxo acompanhado de pacientes. Divulgação do NIC.br.
Vox Populi/IESS: pesquisa presencial realizada entre julho e agosto de 2025 em oito regiões metropolitanas. A pergunta sobre segurança dos dados integrados tem base de 1.025 beneficiários de planos de saúde. Os percentuais não representam todos os brasileiros e não medem especificamente dados de wearables. Relatório, página 88 do PDF.
Opinion Box: 1.000 pessoas de 18 anos ou mais entrevistadas pela internet em março de 2026; os indicadores referem-se a experiências relatadas ao menos uma vez e não podem ser somados. Pesquisa de painel online, sem base para extrapolar os resultados a todos os brasileiros. O relatório está no acervo da edição; a página do instituto oferece acesso mediante cadastro.
Dados gerados pelo paciente: Keeling e colegas, 2025, revisão de escopo de 16 estudos, majoritariamente de países de alta renda; desenhos heterogêneos e vários trabalhos em estágio inicial limitam a generalização e as conclusões sobre efeitos de longo prazo. Um dos autores declarou cargo em empresa de tecnologia para saúde, sem participação da empresa na revisão. Texto integral.
ACC e Apple Watch: orientação americana de 2025 desenvolvida com financiamento e apoio da Apple; disponibilidade e indicação das funções dependem da jurisdição e do contexto clínico. Comunicado do ACC.







